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Novos carros da Omoda & Jaecoo no Brasil serão flex

Omoda 5 e Omoda 7

Agenda técnica na China confirma motores 1.5 turbo, 1.6 turbo, híbridos HEV/PHEV e futuro 1.0 turbo para 2028, todos preparados para etanol e gasolina, em uma estratégia feita sob medida para o Brasil, com elétricos puros fora dessa conta por não usarem combustível líquido convencional

A Omoda & Jaecoo prepara uma mudança importante para sua operação brasileira. A marca vai adotar tecnologia flex fuel nos próximos lançamentos com motor a combustão, incluindo modelos híbridos convencionais e híbridos plug-in. A informação foi detalhada durante uma apresentação técnica na sede da Chery International, em Wuhu, na China, com a presença da InstaCarro, e conduzida por Yunfei Luan, chefe internacional de powertrain da Chery e engenheiro com 24 anos de experiência em veículos híbridos, elétricos e híbridos plug-in.

A orientação interna é clara: os novos carros da marca para o Brasil devem aceitar gasolina e etanol. A exceção fica para os elétricos puros, que não usam combustível líquido. Luan resumiu a diretriz com uma frase objetiva durante a entrevista: para o Brasil, será “flex fuel ou nada”. O plano envolve motores 1.5 turbo, 1.6 turbo, sistemas híbridos HEV/PHEV e, mais adiante, um motor 1.0 turbo previsto para 2028.

Brasil virou prioridade no desenvolvimento flex

O Brasil tem peso direto nessa decisão. A apresentação técnica da Chery mostra que o mercado nacional está perto de 2,7 milhões de veículos por ano, com os modelos flex respondendo por cerca de 73% do total. Entre os SUVs, segmento central para a Omoda & Jaecoo, a participação dos flex chega a 77%. Os SUVs, por sua vez, representam 41% do mercado brasileiro.

Esse recorte ajuda a explicar a pressa. A Chery tem um portfólio global fortemente concentrado em SUVs, e a Omoda & Jaecoo segue a mesma lógica. Luan citou que, dentro da linha de produtos da Chery, os SUVs representam algo próximo de 80%. Em mercados como Brasil, Estados Unidos, Europa e China, esse tipo de carro ganhou escala por oferecer posição de dirigir elevada, porta-malas maior e mais espaço interno.

O problema está no consumo. SUVs são maiores, mais pesados e exigem mais energia para se mover. A resposta da engenharia passa por motores mais eficientes, transmissões de menor perda mecânica e eletrificação. No Brasil, o etanol entra como parte relevante dessa equação, tanto pelo histórico de uso quanto pelas regras de eficiência e emissões que passaram a orientar a indústria local.

Mover reforça a aposta no etanol

A política flex também se encaixa no Mover, programa federal que substituiu o Rota 2030 e passou a cobrar metas mais amplas das fabricantes. O novo regime considera eficiência energética, emissões de CO₂ equivalente do poço à roda, segurança, reciclabilidade e rotulagem. A partir de 2027, a pegada de carbono no ciclo completo do produto também entra no cálculo.

Para uma marca nova no país, vender carros preparados para etanol pode ajudar em diferentes frentes: aceitação comercial, adequação tributária, imagem ambiental e competitividade contra fabricantes já estabelecidas. Luan mencionou o benefício fiscal como um dos fatores que justificam o investimento. Segundo ele, depois que a engenharia domina a tecnologia, o custo adicional de fazer um carro flex compensa pelo ganho regulatório e comercial.

A Chery também enxerga o etanol além do Brasil. A tecnologia flex está em desenvolvimento para mercados fora da China, com atenção a países que começam a ampliar a mistura de biocombustíveis. A Índia já trabalha com E20, enquanto a Europa usa E10 em parte de sua frota. O Brasil, por usar desde misturas obrigatórias de etanol na gasolina até E100 nos carros flex, exige uma solução mais robusta.

Motor 1.5 turbo flex chega primeiro

O primeiro conjunto técnico dessa nova fase é o G4T15 com transmissão DCT260. Trata-se de um motor 1.5 turbo GDI de quarta geração, com taxa de compressão de 14,5:1, potência líquida de 105 kW, equivalente a 143 cv, e torque de 225 Nm. O câmbio é automatizado de dupla embreagem, tem seis marchas, pesa 64 kg e suporta até 260 Nm.

Powertrain G4T15+DCT260
Powertrain G4T15+DCT260 – Reprodução

A transmissão alcança eficiência máxima de 97%, segundo a apresentação técnica. Luan destacou também o pacote compacto do câmbio, com formato mais favorável ao encaixe no cofre do motor. Em um SUV, qualquer redução de peso e volume ajuda no consumo, no espaço disponível para componentes e na calibração final.

Esse 1.5 não deve ser confundido com motores anteriores usados por modelos da Caoa Chery no Brasil. Durante a entrevista, Luan explicou que o G4T15 pertence a uma geração mais recente. Ele o separou dos antigos 1.5 com injeção indireta, classificados por ele como unidades de segunda geração. A nova família usa injeção direta, turbo e desenvolvimento voltado a eficiência.

A calibração flex desse conjunto deve ser concluída até o fim de 2026. Depois disso, o projeto ainda passa por certificação, homologação e preparação comercial. A expectativa indicada na conversa técnica é que os primeiros carros com esse motor sejam vistos no Brasil no ano seguinte.

1.6 turbo flex mira modelos de maior desempenho

A segunda rota confirmada na apresentação é o F4J16C com câmbio DCT300. O motor 1.6 turbo entrega 132 kW, ou cerca de 179 cv, e 280 Nm. O câmbio automatizado de dupla embreagem tem sete marchas, pesa 68 kg, suporta até 300 Nm e alcança eficiência máxima de 98%.

Powertrain Chery F4J16C+DCT300
Powertrain Chery F4J16C+DCT300 – Reprodução

Esse conjunto foi apresentado como uma solução de desempenho superior dentro da estratégia flex. A Chery o chama de “Golden Powertrain” e destaca compatibilidade com diferentes veículos. A transmissão, fornecida pela Magna, foi citada por Luan como uma DCT de alto nível, com aplicações globais em marcas premium.

A engenharia também aponta conformidade com normas EU6E e potencial para atender exigências EU7. Isso indica uma arquitetura global, ajustável a diferentes mercados. Para o Brasil, o foco será calibrar o motor para gasolina, etanol e misturas intermediárias, mantendo potência, consumo, emissões e dirigibilidade dentro do padrão esperado.

Híbrido flex usa motor 1.5 dedicado

A parte mais importante da apresentação para o mercado brasileiro está no H4T15 com transmissão DHT160. Esse sistema combina um motor 1.5 turbo híbrido dedicado, de quinta geração, com uma transmissão híbrida de nova geração. O motor térmico entrega 90 kW, ou 122 cv, e 210 Nm, com taxa de compressão de 15:1.

Powertrain Chery H4T15+DHT160
Powertrain Chery H4T15+DHT160 – Reprodução

Ao contrário do 1.5 turbo GDI, esse motor híbrido não usa injeção direta. Luan explicou que a decisão ajuda a controlar custos. Como o etanol tem maior resistência à detonação, a engenharia consegue trabalhar com taxa de compressão elevada sem depender de um sistema de combustível tão caro. O combustível também resfria a câmara de combustão durante a vaporização, o que favorece o uso de compressões mais altas.

O engenheiro afirmou que a taxa de 15:1 está em uma faixa muito elevada, mas a Chery já acumulou experiência suficiente nesse tipo de projeto. O desafio mais difícil, segundo ele, está na adaptação flex. O motor precisa funcionar com diferentes proporções de etanol, em condições de temperatura variadas, com boa partida a frio, baixo consumo, controle de emissões e durabilidade.

DHT160 trabalha com dois motores elétricos

A transmissão híbrida DHT160 tem dois motores elétricos internos. Um atua como gerador e pode ligar o motor a combustão ou produzir energia. O outro é o motor de tração, com potência de pico de 160 kW, equivalente a 218 cv, e torque de 310 Nm. O gerador tem potência nominal de 60 kW.

O sistema opera em diferentes modos. No modo série, o motor a combustão gera energia e não move diretamente as rodas. No modo paralelo, o motor térmico participa da tração. Também há funcionamento elétrico, quando a bateria tem carga suficiente e a demanda de potência permite. A transmissão usa uma relação fixa de redução, sem trocas de marcha como em uma caixa convencional.

Luan destacou que a DHT160 evoluiu em relação à DHT150. A nova unidade ficou mais potente, mais eficiente e com custo melhor. A eficiência WLTC do sistema elétrico é de 90%, índice relevante porque inclui perdas dos motores elétricos, e não apenas a parte mecânica da transmissão.

HEV e PHEV compartilham a mesma base

A Chery pretende usar a mesma arquitetura de motor e transmissão nos híbridos convencionais e nos híbridos plug-in. A diferença principal está na bateria e na possibilidade de recarga externa. O PHEV tem bateria maior e pode ser carregado na tomada. O HEV usa bateria menor, recarregada pelo próprio sistema durante o uso.

Para o Brasil, Luan enxerga o HEV como uma solução especialmente forte. O motorista não depende de carregador, não muda a rotina e ainda consegue reduzir consumo. Segundo ele, a economia mínima pode ficar em torno de 25%, com ganhos de 35% a 40% em uso urbano, dependendo do carro, da calibração e do ciclo de condução.

Essa leitura conversa com a realidade brasileira. A infraestrutura de recarga ainda é desigual, principalmente fora dos grandes centros. O híbrido convencional permite explorar eletrificação em congestionamentos, saídas, manobras e uso urbano sem exigir tomada. Para muitos consumidores, a simplicidade de abastecer e dirigir continua sendo um fator decisivo.

Partida a frio terá aquecimento no injetor

O etanol exige cuidado extra na partida a frio porque evapora com mais dificuldade em baixas temperaturas. A solução da Chery usa aquecimento localizado no injetor. Luan explicou que algumas empresas aquecem todo o rail de combustível, mas esse caminho consome mais energia. Ao concentrar o aquecimento no injetor, o sistema age onde o combustível precisa vaporizar.

O aquecimento leva cerca de cinco segundos, de acordo com a explicação do engenheiro, embora a calibração ainda esteja em desenvolvimento. Nos híbridos, a lógica fica mais complexa. Se a bateria tiver carga suficiente, o carro pode sair em modo elétrico sem acionar o motor a combustão. Se a bateria estiver baixa, ou se o motorista pedir mais potência, o motor térmico entra automaticamente.

A adaptação flex inclui injetores específicos, bomba de alta pressão, sensor de etanol, módulo de controle do aquecimento, alterações em componentes do motor, materiais mais resistentes à corrosão e novo software da ECU. A central calcula a quantidade de combustível conforme o teor de etanol, ajusta ponto de ignição e altera a pressão do turbo de acordo com as características da mistura.

Testes no Brasil entram no cronograma

A validação não ficará restrita aos laboratórios chineses. A Chery prevê testes de rodagem no Brasil, calibração local, homologação e verificação de emissões. Luan afirmou que o país tem regras próprias, diferentes de outros mercados latino-americanos, o que exige desenvolvimento específico.

O programa de confiabilidade citado na apresentação inclui testes de bancada, ensaios em alta carga, choque térmico, simulação de estrada, câmara climática, névoa salina, rodagem em anel de alta velocidade e testes de uso real. A empresa também trabalha com diferentes misturas de etanol, como E22, E61 e E100, para avaliar desempenho, consumo, emissões e durabilidade.

Depois dos testes, os motores são desmontados para análise. Luan citou ciclos de centenas de horas, chegando a 300, 400 ou 450 horas de durabilidade em determinadas condições. Esse tipo de validação é essencial em um projeto flex, já que o etanol pode exigir materiais, vedadores, bomba, injetores e calibração mais resistentes.

Plano inclui seis modelos flex

A apresentação técnica mostra uma linha O&J flex fuel com seis modelos, cobrindo desde carros compactos até SUVs médios e grandes. A divisão inclui veículos a combustão, híbridos e híbridos plug-in. Na entrevista, Luan também mencionou mais de 10 veículos em desenvolvimento dentro da ofensiva global, distribuídos em quatro powertrains.

A marca não revelou a lista completa de nomes. Os modelos mais prováveis para o Brasil passam por Omoda 5, Jaecoo 5, Omoda 7 e Jaecoo 7, mas a confirmação depende do calendário local. A produção brasileira, já prevista para 2027, deve ajudar a sustentar essa expansão com maior competitividade.

Hoje, a Omoda & Jaecoo já vende no país produtos eletrificados como Omoda 5 SHS-H, Omoda E5, Jaecoo 7 SHS-P e Omoda 7 SHS-P. A próxima etapa adiciona flex fuel aos carros com motor térmico. Isso amplia o alcance da marca em um mercado no qual gasolina e etanol ainda pesam muito na decisão de compra.

Motor 1.0 turbo fica para 2028

Outro projeto confirmado na conversa técnica é um motor 1.0 turbo. Luan disse que a Chery trabalha nessa unidade, mas indicou um prazo mais distante. A previsão mencionada foi 2028. Ele ainda não confirmou se a aplicação será apenas a combustão ou também híbrida.

O interesse pelo 1.0 turbo tem explicação direta no Brasil. Motores de menor cilindrada podem trazer vantagem tributária e ajudam a formar versões mais acessíveis. Ao mesmo tempo, o turbo permite preservar desempenho em carros maiores e mais pesados, como SUVs compactos.

A chegada desse motor depois dos 1.5, 1.6 e híbridos mostra uma sequência lógica. A Omoda & Jaecoo começa pelos produtos de maior valor agregado e pelos sistemas já mais maduros dentro da Chery. O 1.0 turbo entra em uma etapa posterior, possivelmente ligado a modelos de maior volume.

O que a estratégia muda para a marca

A adoção ampla do flex coloca a Omoda & Jaecoo em uma posição mais alinhada ao mercado brasileiro. Carros chineses eletrificados ganharam espaço nos últimos anos, mas muitos ainda chegam sem compatibilidade com etanol. Em um país com rede ampla de abastecimento, uso consolidado do biocombustível e regras que favorecem soluções de menor emissão, essa ausência pode pesar contra uma marca nova.

A Chery trabalha para evitar esse problema desde o desenvolvimento do powertrain. O projeto inclui motores preparados para etanol, sensores específicos, aquecimento de combustível, calibração própria, testes locais e integração com sistemas híbridos. O objetivo é entregar carros que não tratem o flex como adaptação de última hora, mas como parte da arquitetura.

Se o cronograma avançar como indicado, a Omoda & Jaecoo terá nos próximos anos uma das ofensivas flex mais amplas entre as marcas chinesas no Brasil. A combinação de motores turbo, híbridos HEV, híbridos plug-in e produção local pode dar à empresa um argumento forte contra rivais japonesas, europeias e chinesas que disputam o mesmo consumidor de SUV.

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