Novo utilitário revelado no Salão de Pequim aposta em cabine modular, seis arranjos internos e versões híbrida plug-in e a combustão para combinar uso familiar, bagagem e carga leve em um projeto monobloco que tenta borrar as fronteiras entre SUV, minivan e picape urbana moderna
A Chery apresentou no Salão do Automóvel de Pequim o Tiggo V, um dos projetos mais incomuns da atual ofensiva global da marca chinesa. O modelo foi revelado como um utilitário familiar transformável, capaz de funcionar como SUV de sete lugares, veículo de cinco ocupantes com maior área para bagagem e até uma espécie de picape leve, dependendo da configuração escolhida. A fabricante o define como o primeiro SUV familiar versátil e transformável da linha Tiggo.
O novo Tiggo V deriva do conceito T1TP, exibido em 2025 durante o Chery International User Summit, em Wuhu, na China. A versão apresentada em Pequim preserva a ideia central do estudo: oferecer um carro único para diferentes rotinas familiares, do deslocamento urbano ao transporte de objetos maiores, passando por viagens, lazer ao ar livre e uso misto em regiões de piso irregular.
A proposta é diferente da de uma picape tradicional. O Tiggo V usa estrutura monobloco, e não chassi sobre longarinas, solução mais comum em SUVs e minivans. Isso indica que a Chery não tentou criar uma rival direta para picapes médias de trabalho pesado, mas sim um veículo familiar com capacidade de adaptação superior à de um SUV convencional.
Essa combinação coloca o Tiggo V em uma categoria difícil de rotular. Ele tem porte e cabine de utilitário familiar, soluções de modularidade próximas às de uma minivan e um modo de carga que simula uma caçamba. Em um mercado cada vez mais dominado por SUVs, a Chery tenta criar diferenciação justamente pela versatilidade.
Cabine modular é o centro do Tiggo V
O principal argumento do Chery Tiggo V está na cabine. A fabricante afirma que o modelo foi desenvolvido para oferecer seis configurações distintas de uso, alternando entre transporte de passageiros, bagagem e carga. Na forma mais tradicional, ele opera como um SUV de sete lugares. Em outros arranjos, pode priorizar espaço interno livre, volume de porta-malas ou acomodação de objetos maiores.
Essa proposta responde a uma demanda comum entre famílias que usam um único carro para tarefas muito diferentes. Durante a semana, o veículo precisa ser confortável para escola, trabalho e deslocamentos urbanos. No fim de semana, pode carregar malas, bicicletas, equipamentos de camping, compras grandes ou itens de lazer. A Chery tenta condensar esses cenários em um só projeto.
O modo mais chamativo é a transformação para um formato de picape leve. No conceito T1TP, a área traseira podia ser reorganizada para criar uma espécie de caçamba de 600 litros, com quatro pontos de amarração, divisórias ajustáveis e uma separação móvel entre a segunda fileira e a área de carga. Esse sistema permitia acomodar objetos mais longos, avançando parte do volume para dentro da cabine.
A solução não transforma o Tiggo V em uma picape de trabalho pesado. A ideia é mais próxima de um SUV multifuncional com capacidade ocasional de carga aberta ou semifechada. Ainda assim, é uma abordagem rara na indústria, especialmente em um produto de proposta familiar e com até sete lugares.
Projeto mistura SUV, minivan e picape leve
A Chery parece ter entendido que muitos consumidores gostam da imagem de um SUV, mas sentem falta da praticidade de uma minivan e da flexibilidade de uma picape. O Tiggo V nasce exatamente nessa intersecção. Ele tenta manter a posição elevada de dirigir, o visual robusto e a sensação de segurança visual de um utilitário, ao mesmo tempo em que explora soluções internas mais funcionais.
Essa mistura também explica por que a marca evita limitar o carro a uma única categoria. Em material de divulgação, a Chery fala em um veículo capaz de transitar entre os formatos SUV, MPV e PUP, sigla usada para se referir à configuração de picape. A mensagem é clara: o Tiggo V foi pensado para famílias que não querem escolher entre passageiros e carga.
Na prática, o sucesso dessa ideia dependerá da facilidade de conversão. Se o sistema exigir esforço excessivo, peças difíceis de manusear ou muito tempo para reorganizar a cabine, a versatilidade pode virar apenas argumento de marketing. Se a transformação for simples, segura e bem integrada, o Tiggo V poderá oferecer uma solução realmente diferente dentro do segmento.
Outro ponto importante será a vedação e o acabamento da parte traseira. Veículos transformáveis costumam enfrentar desafios de ruído, infiltração, rigidez e durabilidade de componentes móveis. Como a Chery ainda não divulgou todos os detalhes técnicos, esses pontos só poderão ser avaliados com mais precisão quando o modelo estiver em versão final de produção e disponível para testes.
Medidas priorizam espaço para sete ocupantes
A ficha técnica completa do Chery Tiggo V ainda não foi aberta, mas a marca já revelou dois números importantes. O utilitário tem entre-eixos de 2.800 mm e altura interna de 1.297 mm. A segunda medida é superior à indicada para o conceito T1TP, que tinha 1.284 mm, reforçando a preocupação com circulação e conforto dentro da cabine.
O entre-eixos de 2,80 metros sugere uma base generosa para um modelo familiar. Esse número é relevante porque influencia diretamente o espaço para pernas, a acomodação da segunda e da terceira fileiras e a capacidade de reorganizar o interior sem sacrificar demais o conforto dos ocupantes.
A altura interna também tem papel importante. Em um veículo com proposta modular, não basta oferecer bancos rebatíveis. É preciso permitir acesso fácil, movimentação dentro da cabine e acomodação de objetos altos. Esse tipo de solução aproxima o Tiggo V de uma leitura moderna das antigas minivans, mas com aparência de SUV.
A Chery ainda não informou comprimento, largura, altura total, volume de porta-malas em cada configuração ou capacidade máxima de carga. Esses dados serão fundamentais para entender o quanto o modelo entrega na prática. Por enquanto, o que se sabe é que a marca priorizou espaço e flexibilidade como pilares do projeto.
Versões PHEV e a combustão estão confirmadas
O Tiggo V terá versões híbrida plug-in e a combustão. A Chery ainda não divulgou potência, torque, capacidade da bateria, autonomia elétrica ou tipo de transmissão, mas já antecipou dados de consumo que ajudam a posicionar o modelo. Para a configuração PHEV, o número informado é de 6,0 l/100 km. Na versão a combustão, a referência é de 7,84 l/100 km.
Em conversão direta, esses números equivalem a aproximadamente 16,7 km/l no híbrido plug-in e 12,8 km/l na versão a combustão. É importante observar que esses valores dependem do ciclo de medição usado pela marca e podem variar bastante conforme uso, carga, relevo, velocidade e, no caso do PHEV, frequência de recarga da bateria.
A presença de uma versão híbrida plug-in faz sentido para um veículo familiar de maior porte. Em deslocamentos urbanos, a eletrificação pode reduzir consumo e ruído. Em viagens, o motor a combustão amplia a autonomia e reduz a dependência de recarga pública. Essa combinação tem se tornado comum em SUVs chineses destinados a mercados globais.
Já a opção exclusivamente a combustão pode ajudar a ampliar o alcance comercial do Tiggo V em países onde infraestrutura de recarga ainda é limitada ou onde o preço de entrada precisa ser mais competitivo. Para uma marca global, oferecer as duas alternativas reduz o risco de depender de uma única tecnologia.
Altura do solo reforça proposta de uso misto
Além da cabine modular, a Chery também destacou a capacidade de uso fora do asfalto. O Tiggo V terá 220 mm de altura livre do solo, número superior ao de muitos SUVs urbanos. A fabricante também informa que o modelo foi projetado para enfrentar inclinações de até 30%, reforçando a ideia de um veículo preparado para estradas de terra, acessos a sítios, áreas de camping e regiões com infraestrutura mais irregular.
A capacidade de travessia em água varia conforme a motorização. A versão híbrida plug-in foi anunciada com 700 mm, enquanto a opção a combustão fica em 650 mm. São números expressivos para um modelo de carroceria monobloco e reforçam a tentativa de afastar o Tiggo V da imagem de um SUV puramente urbano.
Ainda assim, é preciso cuidado na interpretação. Altura do solo e capacidade de travessia não transformam automaticamente um veículo em fora de estrada extremo. Pneus, ângulos de entrada e saída, tração, proteção inferior, calibração eletrônica e resistência estrutural também fazem diferença. A Chery ainda não detalhou todos esses pontos.
O que já fica claro é o posicionamento: o Tiggo V foi pensado para famílias que podem enfrentar ruas ruins, estradas não pavimentadas e viagens com maior carga, mas sem abrir mão de conforto e uso diário. Esse equilíbrio é justamente o que diferencia o projeto de uma picape tradicional ou de um SUV de sete lugares convencional.
Proposta mira famílias que querem um carro só
O público-alvo do Chery Tiggo V é bastante específico. A marca mira famílias que precisam de espaço, mas também buscam flexibilidade. São consumidores que, em outras situações, poderiam considerar um SUV de sete lugares, uma minivan, uma perua de grande porte ou até uma picape compacta para tarefas ocasionais.
A ideia de “um carro para tudo” é atraente, mas difícil de executar. Um veículo muito voltado ao transporte de passageiros pode perder eficiência como cargueiro. Um modelo muito focado em carga pode ficar menos confortável para a família. O Tiggo V tenta resolver esse conflito com modularidade, mas sua aceitação dependerá de como essa solução funcionará no uso real.
Também há um componente de imagem. SUVs continuam sendo a carroceria mais desejada em muitos mercados, enquanto minivans perderam espaço justamente por serem associadas a um uso mais racional e menos aspiracional. Ao vestir uma proposta de minivan com aparência de SUV, a Chery busca unir praticidade e apelo visual.
Esse tipo de produto pode ter espaço em países onde famílias grandes precisam de versatilidade sem migrar para picapes caras ou vans. No Brasil, por exemplo, ainda não há confirmação de venda do Tiggo V, mas a proposta chamaria atenção em um mercado com poucas opções realmente familiares de sete lugares e quase nenhuma alternativa modular desse tipo.
Tiggo V pode abrir uma nova frente para a Chery
O Tiggo V mostra que a Chery está disposta a experimentar formatos menos óbvios dentro da família Tiggo. Em vez de apenas lançar mais um SUV médio ou grande, a marca tenta criar uma solução de uso ampliado, com diferenciação clara em relação a produtos convencionais. Essa é uma estratégia importante em um mercado saturado por utilitários esportivos parecidos entre si.
O risco está na complexidade. Carros modulares precisam ser fáceis de entender, simples de operar e convincentes na prática. Se o consumidor enxergar a transformação como algo trabalhoso ou pouco útil, o diferencial perde força. Por outro lado, se a solução for bem executada, o Tiggo V poderá ocupar um espaço quase exclusivo.
Ainda faltam informações essenciais. A Chery não divulgou preços, calendário de lançamento por mercado, lista de equipamentos, dados completos de desempenho, autonomia da versão híbrida plug-in ou capacidade de carga em cada configuração. Também não há confirmação oficial sobre uma eventual chegada ao Brasil.
Mesmo assim, a estreia em Pequim já coloca o Tiggo V entre os projetos mais curiosos da nova fase da Chery. Ao combinar sete lugares, cabine modular, opção híbrida plug-in, motor a combustão e modo de carga inspirado em picapes, o modelo tenta responder a uma pergunta simples: e se uma família pudesse trocar três tipos de carro por um só? A resposta ainda dependerá do teste nas ruas, mas a proposta já foge do padrão.


